Romance do Pescador Velho”Bernardo dá-me uma esmolinha!”
tu, lavagante, a pedir!...
Seria de lume a moeda
Que eu, de joelhos te daria.
E tu havias de sentir…
Não posso, pescador, não dou!
Dou-te os gritos mudos do pântano
Que inunda a minha garganta,
Dou-te as lágrimas de fel
Que me enchem os olhos de espanto:
Não há justiça, nem Deus no céu?
Tu, lavagante a pedir!
esmola a ti?! Não dou. Não dou!
dou-te o meu deserto sem fim,
a fúria deste caudal
que sobe, sangrento, em mim,
dou-te a vergonha que sinto
de ser homem e viver assim
na terra que te viu jovem
-de fogo, sal e alecrim!-
e hoje te deixa pedir
uma esmolinha por caridade!
Levanta-te lavagante,
Vence essa roxa saudade:
Pescador, lembra-te de quem és!...
Extracto do poema “Romance do Pescador Velho“
de Bernardo Santareno inserido no livro “romances do Mar”.

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